26 outubro, 2012

25 outubro, 2012

Histórias de aeroporto #1


Parou de chover. Olho pela janela e consigo ver o céu azul que habita lá em cima. Espreito por entre as nuvens escuras e densas alternadas por outras mais leves que desenham rabiscos envergonhados nestes dias cinzentos.
Da minha janela vejo ao fundo o aeroporto. É lá que nos encontraremos daqui a pouco. Este pouco que parece tanto nas horas da tua ausência.
As malas, deixei-as ontem à noite em tua casa e pedi que mas levasses para eu poder ir directamente do trabalho sem ter que fazer paragens desnecessárias, pois a vontade em te  encontrar é mais que muita. Será tudo simples e directo.
Os últimos pormenores foram acertados ontem à noite por entre lençóis aquecidos pelos nossos corpos e por entre promessas que já foram esquecidas.
Hoje fugiremos para outro destino. Um mundo cheio de possibilidades, longe desta realidade viciada que destrói e consome as nossas vidas. Só tu e eu noutro lugar qualquer.
Chegado o momento, saio a correr para o aeroporto. Consigo chegar à hora combinada. Ainda não cá estás. Mando uma mensagem que fica pendente. Começo então despreocupadamente a pensar em possibilidades. Chove imenso lá fora. Deves estar preso no trânsito. Ficaste sem bateria, impossibilitado de me avisar.
Passados vinte minutos, as hipóteses mantêm-se, mas o tom dos meus pensamentos modifica-se. É agravado. Penso que talvez possas ter desistido. Na verdade, a tua vida é outra, muito centrada nas tuas coisas, na tua vida com as tuas pessoas. E eu não sou uma delas, nem faço parte do teu círculo de amigos. Criei a ilusão de que poderíamos fazer uma viagem, deixando tudo para trás. Mesmo que apenas por uns dias. A vivência de uma história de amor, mesmo que efémera.
No fundo, sabia que a tua posição jamais iria mudar. Nunca abdicarias da tua vida por mim, nem me levarias para dentro dela. No fundo, ainda bem que assim era. Algo que sabemos que não é adquirido é algo por que lutamos com mais cuidado, com mais vontade. E eu sabia que se perdesse o sentido disso, iria aborrecer-me e a magia que nos mantem aqui iria desaparecer. Então, passarias a ser mais um, como tantos outros que passaram pela minha vida. Não queria olhar para ti dessa forma. Eras um desafio e não queria que isso acontecesse contigo. Não contigo. A minha ilusão preferida. Queria fazê-la durar.
Os minutos foram passando e fui tomando consciência que tudo aquilo não passara de uma brincadeira de meninos. Respirei fundo como que a ganhar força para me erguer do banco onde me mantinha sentada há mais de meia hora. O meu mundo tornou-se novamente cinzento e não valia a pena continuar ali.
Olhei uma última vez para o telemóvel. Nada. A mensagem continuava pendente. Levantei-me e comecei a caminhar em direcção à saída. A saída que era a entrada de volta para a minha realidade. Respirei fundo de novo, desta vez resignada.
Encostei a palma da mão quente contra o letreiro que dizia push. E foi aí que senti o meu braço esquerdo a ser puxado novamente para dentro. Eras tu. Com esse sorriso enorme e despreocupado que logo me contagiou. Sorri também e disse que ia apenas fumar um cigarro. Eu que nem fumo, tu que nem te lembraste disso. Disse-te que também eu tinha acabado de chegar. Sim, vamos fugir, respondi.
Senti que talvez essa viagem fosse um erro, mas resolvi, eu própria, não desistir. Preferi arrepender-me depois, já com uma história para contar...


23 outubro, 2012

21 outubro, 2012

Entre a paragem e a regressão

"How could it be worse than not moving?
... maybe go backwards."
                                                       Awake





Tenho tido insónias quase todos os dias. Fico cansada, adormeço demasiado cedo e depois acordo sempre de madrugada. A essa hora não há ninguém para falar, estão todos entregues ao mundo onírico.
A cidade adormecida não oferece muitas opções. Quero sair, quero muito sair. Não consigo. Fico fechada em casa agarrada à inércia dos dias. Vejo as horas e os minutos a passar. Adormeço e acordo muitas vezes no intervalo de coisa nenhuma. Estou estagnada. A minha vida parou no tempo e no espaço. Não acontece absolutamente nada. 
Tudo permanece insípido. Continuo sem gosto, sem prazer. Dizem-me que tenho que sair, para me divertir, mas a verdade é que, a cada vez que o faço, tal não acontece. São apenas repetições mais e mais falaciosas do que já foi dito e feito. E as promessas feitas sem sentido, as garantias que no momento a seguir perdem toda e qualquer validade, as palavras que de honra nada têm. A confiança e a crença no outro esfumam-se no ar, por entre mentiras e nevoeiro. Já não existem pessoas genuínas, é tudo uma farsa viciada e coberta por roupas bonitas, perfumes enebriantes e sorrisos forçados. Um rol de vidas de faz de conta em que no fim nada sobra, nem uma mão onde se agarrar.
Não sei o que será preferível, uma vida assente em cinismo e momentos falaciosos, ou uma vida estagnada cuja palavra ainda vale muito ou quase tudo...

03 outubro, 2012

Momento


Estou imóvel. Uma tranquilidade habita em mim como há muito não acontecia. O meu corpo nu, coberto de um odor ainda morno, está de costas para o teu. Os teus braços envolvem-me de uma forma estranhamente confortável. Através da janela aberta, sinto a leve brisa que de quando em quando se faz sentir, fazendo lembrar que o mundo lá fora ainda se move. Alheio-me. Neste lusco-fusco que anuncia a aproximação da noite, fito o branco do tecto por onde passam luzes fugidias provenientes dos carros que deslizam sobre a calçada. Os teus dedos passeiam na superfície da minha pele e movem-se em festas mais e mais espaçadas. Deixas-te ir devagar e abandonas-te mesmo ao meu lado. Estás tão colado a mim quanto possível. A tua respiração torna-se mais pesada. Sorrio. Sentes que daqui nenhum mal virá. Isso assusta-te, faz-te duvidar depois de um passado tantas vezes amargo. Aqui e neste preciso momento, sentes a tranquilidade necessária para te deixares levar para outro lado qualquer. Permaneço imóvel. Volto a sentir a brisa que envolve o quarto e atenua o calor húmido dos corpos. Respiro fundo e sinto uma calma imensa. Era mesmo disto que estava a precisar. Descansar um pouco do resto do mundo num momento tão efémero quanto este. Fico assim... só assim a desfrutar a ausência das coisas. Sem sentimentos. Sem compromissos. Dois corpos apenas, abraçados num gesto tão simples. Um gesto que por vezes demora tanto a chegar. Movo-me devagar. Acordas sem saber quanto tempo passou. Ajustamos a posição, tão docemente quanto possível, para não acordar o momento. Libertamo-nos em meios sorrisos e olhares transparentes, despidos de qualquer preconceito. Livre, fecho os olhos e ouço este silêncio que diz tanto...