07 agosto, 2012

Valtor


Ontem encurtou-se a lista das coisas que nunca tinha feito e ainda quero fazer. O convite surgiu inesperado e, após um dia de trabalho em que o descanso e o bem estar do fim de semana ainda se faziam sentir, lá fui eu ao encontro de uma experiência que queria, mas temia.
Atravessámos a ponte e percorremos a estrada até Alcochete. Confesso que estava um bocadinho ansiosa e disse logo que ia apenas ver e tirar algumas fotografias.
Era um animal enorme e não fui sequer capaz de lhe dar uma festa. Fiquei assim a uma distância confortável enquanto o cavalo era preparado para ser montado.
À medida que o tempo ia passando e eu ia observando os seus movimentos, ia-me parecendo menor, apesar dos seus mais de seiscentos quilos. De pêlo castanho, brilhante e lustroso, com uma estrela branca na testa, patas traseiras brancas junto aos cascos e crina e rabo pretos, era de grande porte e impunha o devido respeito. Uma massa magnífica de músculos e força, tão dócil quão grande.
Lá  cedi e decidi ir montar. Apesar de ser muito alto, não tive medo. Não me assustei sequer. Desde logo senti uma ligação enorme com o Valtor. Parecia que nos fundíamos num só e sentia todos os seus movimentos. A sua passada pesada transmitiu-me a confiança necessária. Conseguia apreender a sua temperatura. É um animal de sangue quente. O seu corpo parecia uma continuação do meu. Ou o meu do dele. Os dois numa perfeita harmonia.
Andei a passo e a trote. Fui corrigindo a postura.  Primeiro, agarrada com ambas as mãos, depois só com uma e depois sem nenhuma. Virei-me no seu dorso e andei de costas. Voltei-me novamente para a frente e levantei os braços. Qual calavo alado...
A melhor sensação foi quando me deitei sobre as suas costas. Senti as suas patas da frente a caminhar lentamente e o seu quadril sob a minha cabeça. Todo o meu peso deitado sobre o seu corpo imenso. E eu, de barriga para cima, sem o ver, colava as mãos aos seus músculos, de dedos bem abertos para sentir cada movimento. E só pude sorrir... limitei-me a isso. Pois não há nada a dizer quando contemplamos o sublime.
Preferi montar sem sela do que com. É melhor para sentir. É uma sensação de comunhão incrível.
No fim, já me abraçava ao Valtor, em jeito de agradecimento, sem qualquer medo ou receio.
Uma experiência demasiado marcante que ontem me deixou extasiada e com poucas palavras. Aposto que os meus olhos brilharam o tempo todo.
Hoje, continuo a sorrir, embora com os pés assentes na terra. Já não estou deitada sobre o seu pescoço com os braços esticados a dar festas entre as suas orelhas. As lágrimas surgem docemente ao relembrar tamanha emoção.
Resta-me agradecer por esta experiência (a repetir). 
Há muito tempo que não me sentia feliz, assim. Obrigada, Velasco!



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