26 julho, 2012

Força de Vontade


Pediste-me para escrever. Querias ler algo novo quando chegasses a casa. Pedi-te um tema. Disseste que ias pensar. Mais tarde chegou a mensagem que dizia “força de vontade”.
Sei que falavas da força de vontade para deixar certos vícios, porque ainda há pouco deixaste de fumar. Para mim, deixar vícios é uma coisa relativamente simples. Acho que basta que a pessoa o decida. Para mim, quinze dias é quanto basta. Mas isso é algo de que talvez vos fale um dia.
Mas quando li a tua mensagem vi as coisas noutra perspectiva. A minha. Sobre a falta dessa força que em mim não tem habitado.
Disse-te que era um tema complicado, nos dias que correm. Não tenho tido nem força nem vontade. Ou melhor, faltam-me as forças para cumprir as vontades que vão surgindo. E quando arranjo força e vou lá, falta-me a vontade de lá estar. Parece que não estou bem em lugar nenhum.
Quero fugir da monotonia e procurar outros lugares, com outras gentes e com outros cheiros. Mas falta-me a energia. Falta algo que me instigue. Parece que perdi o prazer nas coisas. Perdi o sabor da vida. Depois, quando consigo recuperar um pouco, pego em mim e vou lá, aos sítios, com pessoas e cores. E não sabe a nada. Perco a vontade numa espécie de desilusão. E volto para casa. Para o meu cantinho onde me sinto realmente confortável. Aqui, consigo sorrir algumas vezes. Aos poucos vou reconstruindo o meu ninho. Até a disposição do quarto mudei. Pode ser que esteja aqui o recomeçar de algo, o reconstruir das bases que preciso para me poder reerguer.
Que a vontade possa surgir em força e que me consiga abstrair e escrever sobre o que realmente me pediste. Em breve...




Dia dos Avós


25 julho, 2012

Xavier Rudd


@ Hipódromo de Cascais



Do resto dos dias


Não voltei a escrever. Fiquei sem paciência para o que quer que seja. Tive muitos momentos maus e poucos bons. Enfim...
Ficam na memória os bocadinhos de Alentejo que ainda consegui apreender. A boa comida. A música e o ambiente incomparável do FMM. A boa companhia que foi surgindo aqui e ali. O mar. A liberdade que impera nas praias escondidas. As noites estreladas e a única estrela cadente que vi, à porta de casa. E o Mil, claro. Um gato preto que nos adoptou. Mas essencialmente ficam na memória as poucas vezes em que sorri. 

Do dia 4

17 de Julho

Acordei bem disposta, tomei um banho e coloquei um vestido. Depois tudo começou a correr mal. Já passa das três da tarde e ainda não consegui sair de casa. Às vezes parece que basta que uma coisa sem importância corra mal para que o meu humor mude de tal maneira que parece quase impossível que volte a reaver a boa disposição. Ainda não vi por nenhum momento que a minha saída de Lisboa valesse a pena. Não me consigo desligar do que me deixa triste, não me consigo divertir. Perdi a vontade de fazer coisas sozinha. Não consigo ler. Fecho-me a ver séries sem ter a mínima disposição para o que quer que seja. Estou-me a perder no lugar onde geralmente me costumo encontrar. Se não consigo sentir-me revitalizada aqui, não sei onde irei buscar forças.
Hoje soube o resultado das minhas análises. Colesterol, triglicéridos e ácido úrico. E há um indicador que revela indícios de uma infecção.  Tudo a passar a escala do que seria normal. Não entendo. Logo eu que tomo cuidado com a alimentação. Não como fritos e doces são controlados. Até o chá que bebo de manhã é sempre sem açúcar. A única coisa de que não abdico, ainda, é do açúcar no café. Mas sinceramente, não me parece que seja isso que faça com que estes valores se apresentem tão elevados. Como pouco e várias vezes ao dia. Como fruta e sopas e no verão as saladas constituem sempre o acompanhamento. Alguma coisa no meu organismo está a processar os alimentos de maneira anómala. Já para não falar noutros sinais que o meu corpo tem dado. Ou, neste caso, a falta deles. O medicamento homeopático que a médica me receitou está longe de fazer efeito. Diz que não preciso de psicoterapia, pois até nisso falei com ela. Não acredito particularmente nesse tipo de ajuda, mas até isso considerei.
Não me sinto bem com ninguém nem em lado nenhum. Sinto que estou a chegar ao meu limite. Tento falar com alguns amigos, mas a resposta é invariavelmente a mesma. Dizem-me para ter calma que com o tempo as coisas vão passar. Para procurar a garra que há em mim. Qual garra?... Não percebo.
Passam-me a mão pelo pêlo e debitam duas ou três frases, mas não sinto nenhuma atitude real. Não sinto que agarrem em mim e levem para algum lado. Para eu me distrair. Nem sequer tenho conversas reais com princípio, meio e fim. Porra, para onde é que me vou virar? Já estou tão cansada...
...
Acho que vou à praia ao fim da tarde. É a melhor parte. As pessoas já estão a sair e já não está tanto calor. Pode ser que ver o mar me traga alguma paz de volta.

Do dia 3

16 de Julho

Acordei e tentei voltar a dormir, mas não consegui. Fiquei às voltas na cama e acabei por desistir. Tomei um banho e tomei o pequeno almoço e fiz-me à estrada.
Das coisas que mais gosto a caminho destas praias é precisamente o percurso. As curvas e contracurvas que conheço tão bem, os recantos, as casinhas por que vou passando, os cafés à beira da estrada, o nome das terrinhas, a passagem por dentro de Porto Covo, as dunas e as praias mesmo ali à beira da falésia. Um caminho algo longo de 27 quilómetros, mas que valem a pena, mesmo ao preço que a gasolina está. Chamem-me o que quiserem, mas em tempo de férias não se contam tostões. Lamento, mas passo o ano todo a fazê-lo. E, com o que trabalho, acho que mereço não ter que me preocupar com isso uma ou duas vezes por ano. A sério, acho mesmo que mereço.
Estive apenas uma hora na praia, apesar do tempo agradável que se fazia sentir, porque não estava demasiado calor e havia vento em quantidade suficiente para que a temperatura elevada não chegasse a incomodar. Depois chegou a hora do almoço e decidimos ir a um restaurante mesmo ali perto. Finalmente, as tão desejadas sardinhas, com uma caminha de pão (alentejano, claro) e um vinho (alentejano, claro) branco e fresco, com uma salada bem temperada de alface, tomate, pepino, pimento, cebola e cenoura. As batatas ficam na travessa à espera de quem as quiser comer.
Depois do almoço, decido ir fazer o euromilhões e dar uma volta. Aposta feita, mas o passeio ficou adiado devido ao excessivo calor que se fazia sentir. Estava demasiado mole para conseguir caminhar e os copos de vinho que bebi também não ajudaram. Decidi ir para casa para dormir uma sesta. Mas dormir é coisa que não tenho conseguido fazer. Falta-me o silêncio necessário. Estou habituada a ter o meu espaço e construo os meus silêncios quando assim o desejo.
Estas férias, ao dividir a casa com a família, ao invés do habitual campismo, e com os putos sempre a correr de um lado para o outro, a agitação está sempre presente a um ritmo demasiado acelerado. Não estou habituada a tanto movimento e não me consigo concentrar em tarefas tão banais como dormir, ler, escrever ou apenas pensar. Acabei por desistir, enfiei-me na banheira e tomei um duche com água a tépida, pois não há água fria que corra nos canos nestes dias tão quentes.
Sinto que me parou a digestão. Bebo apenas água em golos pequenos para que não piore. Mesmo assim, a má disposição tende a não abrandar. Abro todas as janelas e portas de casa. Finalmente, corre uma brisa. Estava a ficar demasiado insuportável. Estranho é que só eu pareço estar incomodada. Enfim...
São quase oito da noite e vamos jantar fora. Contentar-me ia com qualquer coisa leve lá mais para o avançar da noite, mas a família insiste em sair e lá vou eu com o rebalho. Talvez encontre uma saladinha no restaurante. Até já.

Do dia 2

15 de Julho 

Acordei cheia de frio. Enregelada. Mais uma vez, comprovei que as noites no Alentejo arrefecem demasiado. Levantei-me com a energia necessária. Pequeno almoço tomado no sítio do costume, com aqueles croissants que já não são a mesma coisa nem com o mesmo tamanho de outros tempos. Apesar disso, continuo a lá ir. Gosto de manter os meus hábitos.
Decidi não ir logo para a praia, porque estava demasiado calor e seria este o meu primeiro dia em que me espunha ao sol. Comprámos carne para grelhar e alface para a salada. Vinho branco muito fresco para acompanhar, como se quer. Eles cozinham e eu ponho a mesa e lavo a loiça. Parece-me justo.
À tarde o descanso merecido. E mais um episódio do Casas para entreter.
Cinco da tarde. Hora mais que boa para ir à praia. Como é o primeiro dia, decidi não perder muito tempo e ir a uma das praias aqui da vila. A maior parte das pessoas já estavam a regressar a casa quando lá cheguei. Mesmo como eu gosto. Pouco calor e óptimo para apreender os últimos raios de sol. O suficiente para relaxar um pouco até se começar a levantar o vento próprio do ocaso e me dar o sinal que era altura de voltar.
Neste momento, encontro-me a aguardar que o jantar fique pronto. Um dia tranquilo. Vamos ver se amanhã a boa disposição cresce e reencontre o estado de espírito que necessito.

(...) Às cinco da manhã, dou por mim com uma insónia. Algo que não me acontecia há já algum tempo. Decido levantar-me e fazer outra coisa qualquer para ver se o sono vem.
Estendo-me no sofá da sala com apenas a luz de um candeeiro acesa e tento fazer o mínimo de barulho possível para não acordar os demais.
Há dois ou três dias que não actualizo a minha leitura virtual. Visito alguns blogues, mas depressa perco a paciência de ler as letras pequeninas que se vão mostrando no pequeno ecrã do telemóvel. Não tenho net no portátil. Também não me faz grande diferença. Vou escrevendo e mais tarde publico, se for caso disso.
O sono tarda em aparecer e já são quase seis da manhã. Lá fora, ouço os galos que anunciam o nascer do dias e uma matilha de cães insiste em marcar a sua presença em latidos constantes. Provavelmente, foi isso que me acordou.
Acho que amanhã, depois do belo pequeno almoço com pão alentejano, vou até uma das minhas praias. Estou a precisar de ver o mar e de ganhar alguma cor. 31 graus é a máxima prevista para amanhã (esse amanhã que já é hoje, mas que não assumo porque ainda não dormi tudo). É demasiado calor para mim, mas suficientemente suportável com a ajuda de um chapéu de sol, água e evitando as horas de maior calor. Ouvi dizer que na capital está insuportável. Ainda bem que fugi de lá.
Tenho fome. Uma bolachas são o ideal para entreter o estômago. Agora lembrei-me daquela história do Murakami em que eles não têm comida em casa e às tantas da manhã decidem ir assaltar um McDonalds. Mas não tenho assim tanta fome e nesta terra, felizmente, ainda não há disso.
Corintia são a minha companhia. Mais que suficiente.
O dia começa a surgir lá fora, tímido. Já vai iluminando as casinhas alentejanas com janelas enquadradas em tons de azul. Os galos vão soando cada vez mais longe e os latidos caninos deram lugar ao piar das andorinhas.
O portátil dá agora sinais de pouca bateria. Faz o primeiro aviso em que apenas restam dez por cento. Deve ser esta a minha deixa para regressar à cama e tentar passar novamente para o outro lado dos sonhos. Até já...

Do dia 1

14 de Julho


Passei os útimos dias de trabalho em contagem decrescente, ansiosa pelas merecidas férias. Apenas uma semana estarei ausente. No entanto, é sempre bom poder sair para arejar as ideias.
Decidi só abalar no domingo para ter tempo suficiente para fazer as coisas com calma. Estar com as pessoas de quem gosto, organizar tudo, deixar a casa limpa. Gosto quando volto de férias e está tudo limpo e arrumado.
Chegado o dia da partida, a vontade em me ausentar desapareceu. Só me apetecia abortar todos os planos e ficar uma semana em casa. Sozinha, com as minhas coisas e as minhas causas. Sem sair da minha zona de conforto. Mas apesar disso, fiz um esforço em cumprir o que havia combinado. Tudo a muito custo, é certo. Mas aos poucos, e como não tinha prazos a cumprir, lá fui conseguido fazer tudo a que me tinha proposto.
Saí de casa e entrei no carro. Triste como nunca ninguém se sente quando vai de férias. Um  sentimento que não sei explicar. Uma apatia que me ocupava e que tantas vezes me faz recusar convites em ir aqui e ali.
A viagem até ao litoral alentejano fez-se com traquilidade. A primeira parte, a ouvir o M. Uma homenagem à Erikah Badu. Concerto que vou perder, por ter rumado a sul... Aquela placa que anuncia a chegada ao Alentejo e que invariavelmente me faz soltar um sorriso. A segunda parte, ao telefone. Bem acompanhada até chegar ao meu destino. Passei por Porto Côvo no lusco fusco, naquela altura do dia que eu, como miope que sou, não vejo nada. Abri a janela para inspirar o cheiro da maresia, mas nada aconteceu. Aquele ar fresco que me revitaliza e que logo à chegada me costuma dar uma injecção de energia, não estava lá para me receber. Foi estranho...
Uma cor vermelha e quente ilustrava a linha do horizonte e revelava que o sol tinha acabado de se pôr.
Jantei e fui me deitar com uma sensação de vazio. Foi assim o meu primeiro dia de férias.

11 julho, 2012

It Ain't You - The Black Mamba


Dark skies & shining stars


Naquela noite, decidimos ir ver as estrelas. Disseste que havia um sítio especial onde as costumavas ir ver sozinho quando eras mais novo. Querias partilhá-lo comigo.
Descemos a ladeira quase às escuras, levando nos braços uma manta, porque os dias no Alentejo são quentes, mas as noites são frias e com uma cacimba que se entranha na pele.
Sentámo-nos no banco de cimento, muito juntinhos um ao outro e com a manta à volta de ambos os corpos. À nossa frente, um céu imenso, muito negro com um manto monumental de estrelas de diferentes brilhos e tamanhos. O mar revoltava-se, estendendo-se sobre as rochas fazendo um som inconfundível. A luz que se esfumava já muito para lá da linha do horizonte, aquecia todo aquele cenário onde apenas se viam alguns barquinhos ao longe. A falésia à nossa frente guardava agora os nossos segredos, enquanto contemplávamos as estrelas cadentes que rasgavam o céu...
Agora e há distância de alguns anos, volto ali para ver as estrelas sozinha e relembrar a perfeição daquele momento. Sei que também o fazes quando ali voltas nos teus verões e nos teus invernos. Imagino-te, com o olhar pensativo, a puxar de um cigarro e a contemplar tudo aquilo sozinho. Naquela paisagem que é tão grandiosa e o quão pequeno te sentes ao olhar para o banco e ao ver que o lugar vazio ao teu lado permanece frio, ausente de mim. Pensas apenas: “... será que algum dia voltaremos a ver as estrelas juntos?”


É nas noites em que o céu está mais negro, que verás as estrelas mais brilhantes.


07 julho, 2012

Acordar assim...


... e comprar rosas frescas para alegrar a casa. :)

05 julho, 2012

The Verve Pipe "The Freshmen"


... para quem se lembra :)

North Atlantic


i will not be broken


I will not be broken
I won't be turned away
When it's too cold to breathe
and too dark to pray
I will not be broken

I've come too far to give up
or to be turned around
I will not be broken
I will not go down

5 meses depois...








... o meu mundo vai-se tornando cada vez mais escuro.
Será que algum dia vou ser capaz de sair daqui?

04 julho, 2012

As tuas duas mãos na minha cintura


Acordei com uma sensação docemente estranha. Acho que sonhei contigo novamente. Desta vez, nem sequer te vi, mas tenho a certeza que eras tu. Eu estava encostada ao balcão da cozinha a cortar uns vegetais para o jantar. Tu vieste por trás de mim, colocaste as tuas duas mãos na minha cintura, uma de cada lado junto ao atilho do avental, e falaste-me perto do ouvido, como que a espreitar por cima do meu ombro direito a tentar ver o que eu estaria a fazer. Lembro-me de perguntares se eu precisava de ajuda enquanto roubavas uma rodela de pepino. Talvez para ir entretendo o estômago enquanto bebias a tua boémia.
Lembro-me ainda de sentir um breve beijo na linha invisível que separa o pescoço do ombro antes das tuas duas mãos abandonarem a minha cintura.
Nunca me virei. Continuei calmamente a cortar os vegetais. Uma cena tão normal da vida real.
Achei estranho pela intimidade que partilhávamos. Não era algo físico, embora obviamente houvesse essa proximidade, mas não tinha qualquer maldade ou intenção. Nem minha, nem tua. Era uma confiança que só algumas pessoas têm. Uma cumplicidade muito bonita pela sua natureza desinteressada.
Um sonho tão real que custa a acreditar, pois na minha realidade estes sonhos não existem.

02 julho, 2012

Just another night #2



Existem dois motivos para eu estar algum tempo sem escrever. Ou porque estou demasiado ocupada, mentalmente disposta a fazer coisas e emocionalmente estável para as cumprir sem dar lugar a tristezas. Ou porque estou demasiado triste e até tenho receio do que possa transpôr para o papel.
Ultimamente, tem sido um misto dos dois. Mas não por circunstâncias da vida ou por bons motivos. O que tem acontecido é que eu intencionalmente me ocupo para não ter tempo para pensar no que quer que seja. Pois sei que quando me permito parar por um pouco me vou abaixo com alguma facilidade.
Hoje, em particular, não está a ser um dia fácil. Sinto-me completamente sozinha. E isso não é bom. Garanto-vos. Durante o dia, estive ocupada no trabalho e as horas passaram a uma velocidade estonteante. Aguentaria outras oito sem sequer reclamar, se preciso fosse. Mas depois há o regresso a casa... Não é fácil regressar sem ter ninguém à espera nestes dias em que não nos somos suficientes. E hoje sinto que não me sou suficiente.
Têm acontecido demasiadas coisas que me deitam abaixo. Ou por um comentário infeliz, ou por uma conversa que me deixa triste, ou por sentir falta de coisas e de pessoas que não deviam estar ausentes. Talvez espere demais das pessoas. Sou demasiado exigente, talvez. 
Depois há outras que também contribuem para esta fase que teima em não passar, mas de que não vou falar aqui. Porque há muitas coisas que não partilho. Nem aqui, nem em lugar nenhum. Simplesmente, guardo-as para mim. Coisas demasiado minhas.
Tenho tantas coisas para fazer. Olho em volta e a minha casa está estagnada. Assim, como a minha alma. O pó vai-se acumulando na superfície dos móveis, a desarrumação vai-se fazendo notar. Não tenho disposição nenhuma para fazer o que quer que seja. Falta-me a coragem.
Precisava de dar uma volta a isto tudo. Deitar coisas fora, dar algumas de que não preciso, desanuviar o espaço. Alterar a disposição das coisas, renovar e pôr ideias em prática, livrar-me desta energia negativa. Queria  poder respirar fundo e sentir-me revitalizada no meu cantinho.
Estou cansada. Estou mesmo cansada. Alguma coisa precisa de mudar para melhor. Alguma coisa tem que surgir para que possa recuperar um pouco a energia que me falta.
Ontem pintei as unhas de uma cor garrida. Já não o fazia há bastante tempo. Ainda não me seintia bem para isso. Normalmente, o que vestimos ou o que usamos, é um reflexo do nosso estado de espírito. Mas desta vez, reverti o sentido. Esperei que o meu estado de espírito acompanhasse a cor do verniz que escolhi. Não resultou. 

Vertigo

(... a 27 de Junho, passada quarta-feira)
Um dia normal como tantos outros. Dez horas seguidas de trabalho, apenas com uma curta pausa de quinze minutos para almoçar. Final de tarde... tudo a postos para ver o jogo. Alguns acertos de última hora e saio do trabalho às seis em ponto.  Apanho o metro, troco de linha. Tudo tranquilo. Chego ao destino e, em vez de dar a volta ao quarteirão, decido cortar caminho e ir por uma ponte aérea que passa por cima de uma via rápida. Ando distraidamente agarrada ao telemóvel, como sempre. Última mensagem. Acto contínuo, guardo o telefone no bolso e levanto a cabeça...
De repente, dou por mim já em cima da ponte, talvez a mais de um terço do percurso, olho para o lado e vejo os carros a passarem por baixo de mim. O caminho estreita-se e o chão foge-me dos pés. As pernas tremem que nem varas verdes. Uma vertigem abismal... Sinto que se voltar para trás, vou cair. Caso me volte, caio redonda no chão e fico ali mesmo. O pânico instala-se. “Não olhes para baixo. Não olhes para baixo”. Começo a correr, mas rapidamente me apercebo que é pior. O pouco equilíbrio que ainda consigo manter, esvai-se. A ponte de ferro e betão armado balança sob os meus pés que nem uma folha ao vento.
“Calma. Respira fundo. Tu consegues!”. Não tinha força nas pernas. Nenhuma. Tive que a ir buscar um um lugar muito recôndito do meu ser. Fiz uma contagem decrescente e os metros entre mim e o fim da ponte iam encurtando.
Lá cheguei ao fim com a passada mais firme que me foi possível. Com a cabeça erguida e sem pinga de sangue a correr-me nas veias. “Consegui!”.
Que acelerado que batia o coração dentro do meu peito. A falta de ar que demorou a desaparecer. Dez minutos depois, sentia-me como se tivesse levado uma tareia. Tudo me doía e sentia uma imensa vontade de chorar, devido a tanta tensão acumulada em tão curto espaço de tempo. Logo eu que nunca tive vertigens na vida e pontes aéreas foi coisa que nunca me assutou. Que cena tão estranha esta...
Até me envergonho de dizer isto, mas por momentos, ali no cimo daquela ponte, julguei que ia morrer. Felizmente, tive presença de espírito suficiente para não me deixar levar por aquele turbilhão de sensações que não sei definir nem explicar. Será isto que sentem as pessoas que têm vertigens?...




Já passei novamente pela ponte. Duas vezes. Nada aconteceu. Alguém consegue explicar isto?...