02 junho, 2012

Vestido sem cor

Paralelo #1


(Escrito no seguimento deste post e publicado com a devida autorização do autor do mesmo. Peço desculpa pelas evidentes referências. Uma ousadia arriscada...).


Não cometerias nenhuma imprecisão ao não conseguires especificar a cor do meu vestido. Porque, nesse fim de tarde, era apenas da cor que mo quisesses despir. Foi nisso que pensei quando cuidadosamente o escolhi, mesmo sabendo que dificilmente o desejo iria surgir.
Foste-me buscar a casa. Anunciaste que tinhas uma surpresa para mim e eu esperei em ansiedade que não fosse nada grandioso. Ia-me custar que te continuasses a esforçar tanto por aquilo que ambos já sabíamos perdido.
A minha mão vazia e despida seguiu na procura da segurança da tua. Uma segurança disfarçada e que nunca senti, mas que desejei e incessantemente procurei no aconchego do teu abraço.
Chegámos ao destino e não pude deixar de sorrir. Tinhas preparado algo realmente especial. Confesso que deixei à porta a tristeza que sentia e, por momentos, consegui relembrar o porquê de me ter apaixonado por ti.
Mas essa tristeza, essa mágoa que tinha e que deixei apenas a uns passos de distância, caminhou ao longo do soalho escuro de madeira corrida e descansou sobre a toalha da mesa, entre mim e entre ti. Entre este nós que era agora desfeito e confirmado na forma doce com que ainda contemplavas os restos da minha beleza. Aquela que ainda reconhecias em mim.
Por entre a luz trémula das velas, que tentavam romantizar o amor perdido, consegui disfarçar a lágrima que surgiu no meu olhar um pouco inebriado ao tomar consciência das conversas que já não surgiam e das mãos que já não se tocavam.
Senti que querias falar. Querias muito falar sobre algo que provavelmente não estaria bem resolvido dentro de ti, algo contra que lutavas mesmo perante tantas evidências. Mas as palavras prendiam-te a fala. Engasgavam-te. Era como uma luta quase patética entre o teu coração (esse que já não era meu) e a tua razão (essa que nunca entendi). Luta que não me atrevi a interromper. Era uma guerra que não me pertencia e que acontecia tragicamente num mundo onde, na verdade, nunca habitei. Um mundo que criaste e que me descrevias tantas vezes da forma mais doce, como uma melodia. Um mundo utópico onde me esforcei para entrar, porque o admirava como uma menina que vive na ilusão de um conto de fadas. Esse mundo que desdobravas em pequenos e grandes desejos, tão teus, em que te permitia fantasiar ao desnudar o meu corpo de um vestido sem cor.
Ao sair do restaurante, senti um frio cortante, um frio estranho que vinha de dentro. Colocaste o teu casaco sobre as minhas costas, ao invés de me abraçares. Aí percebi que jamais irias mudar. Encolhi os ombros e puxei o teu casaco contra a minha pele. O casaco emanava o teu perfume. Foi assim que o senti pela última vez.
Parei e entreguei-te um presente. Um livro que tinha comprado em tempos, quando ainda tudo fazia sentido. Não queria correr o risco de ficar com ele para voltar a encontrá-lo mais tarde num recanto qualquer, como aqueles pequenos pedaços de realidade que insistem em voltar para nos relembrar um passado que queremos distante.
Começa a chover. Ao contrário do normal, cai a direito. Para oblíquos já bastam os sentimentos que nos atravessam o peito e nos cortam o ar, pensei. A chuva cai a direito e ilustra as fachadas dos prédios em pinceladas que me fazem lembrar a tua caligrafia. Parece que de repente todas as paredes estão cobertas com as palavras que tantas vezes me dedicaste. Imortalizadas assim à vista de todos.
Entramos no carro. Deito a cabeça no teu colo. Fecho os olhos na esperança que voltes a brincar com o meu cabelo, que nele entrelaces os teus dedos, que destapes o meu pescoço na procura de uma réstia de inocência e que a desfaças na ternura de um beijo.
Mas é uma espera vã, que confirmo ao abrir os olhos e ao ver que estás embrenhado no livro que te dei. Ao ver que a noite continua escura e dói de novo. Questiono como nunca me soubeste ler, a mim, como nunca conseguiste discernir o que era importante, como nunca soubeste definir prioridades. E a tua, naquele preciso momento, deveria ter sido a de me envolveres nos teus braços. Fecho os olhos de novo, desta vez com força, com o intuito de me esconder. No fundo, não quero estar ali. Não daquela forma.
Concentro-me na chuva e no seu som metálico, mas o silêncio é rasgado pela tua voz embriagada quando me lês um excerto do livro. As palavras que dizem uma coisa estão impressas no teu tom que espelha precisamente o seu contrário. Afinal, também tu reconheces no que isto se tornou. E, incontornavelmente, beijas-me como se fosse a última vez. Um beijo como tantos outros, pois nunca nos queremos despedir definitivamente.
Saio do carro, levando comigo o coração pesado e o teu cheiro impregnado em mim. Hesito. Apresso o passo. Julgo ouvir-te a chamar por mim. Será? Fica a dúvida, pois nem sequer me atrevo a olhar para trás. Não é essa a imagem que quero guardar de ti, a imagem de te ires embora.
Fica tu com a minha imagem desfocada pela distância e desbotada pelas lágrimas depositadas no vestido sem cor.


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