01 dezembro, 2012

está tanto frio

Tenho o corpo moído. Deve ser por passar tanto tempo deitada, depois sentada e depois deitada de novo. Às vezes, virada para cima, outras vezes para um lado e outras para o outro. De noite na cama, de dia no sofá. Estou cansada. De andar com duas muletas, com uma, ou tão somente ao pé coxinho. De tentar pôr o pé no chão e perceber uma e outra vez que não consigo. Estou cansada dos antibióticos e dos analgésicos, de pensar nas horas e fazer contas até à próxima toma. Estou cansada da inércia e dos programas de tv. Não há disposição para ler e surpreendo-me como consumo as seasons das séries com tamanha rapidez.
Dói-me as costas, dói-me os braços, dói-me as pernas, dói-me o pé. Dói-me o corpo todo e raramente me dói a cabeça. Mas é só até alguém se lembrar. Não sinto só que me mutilaram uma parte do corpo, porque, mais do que em qualquer outro sítio, tenho dores na alma. E não há clonix que as alivie.
Para ilustrar tudo isto, comecei a perder cabelo. Assim, como nunca me aconteceu.
Perguntam-me se estou bem. Respondo que mais ou menos. Não quero falar. Dizem-me que está frio lá fora. Que está tanto frio. Aqui está quente e o frio que se sente vem de dentro do peito...

19 novembro, 2012

Sangue do meu Sangue





Ouvi falar na rádio e vi-o quase sem querer.
A naturalidade das representações faz-nos esquecer que é mera ficção e transporta-nos para realidades que existem todos os dias, mesmo ao nosso lado. 
A mudança repentina de planos faz com que os contextos se misturem, obrigando o espectador a uma maior atenção. As diferenças dos estratos sociais destacam-se pelos sons de fundo. 
A mim prendeu-me do início ao fim.
Um filme surpreendente que conta uma história real.

08 novembro, 2012

26 outubro, 2012

25 outubro, 2012

Histórias de aeroporto #1


Parou de chover. Olho pela janela e consigo ver o céu azul que habita lá em cima. Espreito por entre as nuvens escuras e densas alternadas por outras mais leves que desenham rabiscos envergonhados nestes dias cinzentos.
Da minha janela vejo ao fundo o aeroporto. É lá que nos encontraremos daqui a pouco. Este pouco que parece tanto nas horas da tua ausência.
As malas, deixei-as ontem à noite em tua casa e pedi que mas levasses para eu poder ir directamente do trabalho sem ter que fazer paragens desnecessárias, pois a vontade em te  encontrar é mais que muita. Será tudo simples e directo.
Os últimos pormenores foram acertados ontem à noite por entre lençóis aquecidos pelos nossos corpos e por entre promessas que já foram esquecidas.
Hoje fugiremos para outro destino. Um mundo cheio de possibilidades, longe desta realidade viciada que destrói e consome as nossas vidas. Só tu e eu noutro lugar qualquer.
Chegado o momento, saio a correr para o aeroporto. Consigo chegar à hora combinada. Ainda não cá estás. Mando uma mensagem que fica pendente. Começo então despreocupadamente a pensar em possibilidades. Chove imenso lá fora. Deves estar preso no trânsito. Ficaste sem bateria, impossibilitado de me avisar.
Passados vinte minutos, as hipóteses mantêm-se, mas o tom dos meus pensamentos modifica-se. É agravado. Penso que talvez possas ter desistido. Na verdade, a tua vida é outra, muito centrada nas tuas coisas, na tua vida com as tuas pessoas. E eu não sou uma delas, nem faço parte do teu círculo de amigos. Criei a ilusão de que poderíamos fazer uma viagem, deixando tudo para trás. Mesmo que apenas por uns dias. A vivência de uma história de amor, mesmo que efémera.
No fundo, sabia que a tua posição jamais iria mudar. Nunca abdicarias da tua vida por mim, nem me levarias para dentro dela. No fundo, ainda bem que assim era. Algo que sabemos que não é adquirido é algo por que lutamos com mais cuidado, com mais vontade. E eu sabia que se perdesse o sentido disso, iria aborrecer-me e a magia que nos mantem aqui iria desaparecer. Então, passarias a ser mais um, como tantos outros que passaram pela minha vida. Não queria olhar para ti dessa forma. Eras um desafio e não queria que isso acontecesse contigo. Não contigo. A minha ilusão preferida. Queria fazê-la durar.
Os minutos foram passando e fui tomando consciência que tudo aquilo não passara de uma brincadeira de meninos. Respirei fundo como que a ganhar força para me erguer do banco onde me mantinha sentada há mais de meia hora. O meu mundo tornou-se novamente cinzento e não valia a pena continuar ali.
Olhei uma última vez para o telemóvel. Nada. A mensagem continuava pendente. Levantei-me e comecei a caminhar em direcção à saída. A saída que era a entrada de volta para a minha realidade. Respirei fundo de novo, desta vez resignada.
Encostei a palma da mão quente contra o letreiro que dizia push. E foi aí que senti o meu braço esquerdo a ser puxado novamente para dentro. Eras tu. Com esse sorriso enorme e despreocupado que logo me contagiou. Sorri também e disse que ia apenas fumar um cigarro. Eu que nem fumo, tu que nem te lembraste disso. Disse-te que também eu tinha acabado de chegar. Sim, vamos fugir, respondi.
Senti que talvez essa viagem fosse um erro, mas resolvi, eu própria, não desistir. Preferi arrepender-me depois, já com uma história para contar...


23 outubro, 2012

21 outubro, 2012

Entre a paragem e a regressão

"How could it be worse than not moving?
... maybe go backwards."
                                                       Awake





Tenho tido insónias quase todos os dias. Fico cansada, adormeço demasiado cedo e depois acordo sempre de madrugada. A essa hora não há ninguém para falar, estão todos entregues ao mundo onírico.
A cidade adormecida não oferece muitas opções. Quero sair, quero muito sair. Não consigo. Fico fechada em casa agarrada à inércia dos dias. Vejo as horas e os minutos a passar. Adormeço e acordo muitas vezes no intervalo de coisa nenhuma. Estou estagnada. A minha vida parou no tempo e no espaço. Não acontece absolutamente nada. 
Tudo permanece insípido. Continuo sem gosto, sem prazer. Dizem-me que tenho que sair, para me divertir, mas a verdade é que, a cada vez que o faço, tal não acontece. São apenas repetições mais e mais falaciosas do que já foi dito e feito. E as promessas feitas sem sentido, as garantias que no momento a seguir perdem toda e qualquer validade, as palavras que de honra nada têm. A confiança e a crença no outro esfumam-se no ar, por entre mentiras e nevoeiro. Já não existem pessoas genuínas, é tudo uma farsa viciada e coberta por roupas bonitas, perfumes enebriantes e sorrisos forçados. Um rol de vidas de faz de conta em que no fim nada sobra, nem uma mão onde se agarrar.
Não sei o que será preferível, uma vida assente em cinismo e momentos falaciosos, ou uma vida estagnada cuja palavra ainda vale muito ou quase tudo...

03 outubro, 2012

Momento


Estou imóvel. Uma tranquilidade habita em mim como há muito não acontecia. O meu corpo nu, coberto de um odor ainda morno, está de costas para o teu. Os teus braços envolvem-me de uma forma estranhamente confortável. Através da janela aberta, sinto a leve brisa que de quando em quando se faz sentir, fazendo lembrar que o mundo lá fora ainda se move. Alheio-me. Neste lusco-fusco que anuncia a aproximação da noite, fito o branco do tecto por onde passam luzes fugidias provenientes dos carros que deslizam sobre a calçada. Os teus dedos passeiam na superfície da minha pele e movem-se em festas mais e mais espaçadas. Deixas-te ir devagar e abandonas-te mesmo ao meu lado. Estás tão colado a mim quanto possível. A tua respiração torna-se mais pesada. Sorrio. Sentes que daqui nenhum mal virá. Isso assusta-te, faz-te duvidar depois de um passado tantas vezes amargo. Aqui e neste preciso momento, sentes a tranquilidade necessária para te deixares levar para outro lado qualquer. Permaneço imóvel. Volto a sentir a brisa que envolve o quarto e atenua o calor húmido dos corpos. Respiro fundo e sinto uma calma imensa. Era mesmo disto que estava a precisar. Descansar um pouco do resto do mundo num momento tão efémero quanto este. Fico assim... só assim a desfrutar a ausência das coisas. Sem sentimentos. Sem compromissos. Dois corpos apenas, abraçados num gesto tão simples. Um gesto que por vezes demora tanto a chegar. Movo-me devagar. Acordas sem saber quanto tempo passou. Ajustamos a posição, tão docemente quanto possível, para não acordar o momento. Libertamo-nos em meios sorrisos e olhares transparentes, despidos de qualquer preconceito. Livre, fecho os olhos e ouço este silêncio que diz tanto...

28 setembro, 2012

03 setembro, 2012

Vá para fora cá dentro








À falta de uma viagem para longe, optei por um vá para fora cá dentro.
De carro, com uma tenda no porta bagagens e um cartão de alberguista na carteira. 
Máquina fotográfica, algum dinheiro e espírito aventureiro são os ingredientes necessários para uma viagem que promete. Estou pronta para quilómetros de estrada com boa música, muito ar puro, praias fluviais e boa comida. Portugal, aí vou eu!

31 agosto, 2012

Once In A Blue Moon

Porque a R. disse que hoje vai haver uma Lua Azul no céu...




... aqui vai uma musiquinha com a participação dos meus queridos LadySmith :)

27 agosto, 2012

Arborismo

De sábado passado...
Depois de um almoço na melhor companhia numa esplanada no Jardim de Belém, com boa comida, bom vinho e o melhor cheese cake do mundo, seguiu-se uma hora desta actividade radical.
Muita aventura, muitas gargalhadas e... no dia a seguir, alguns músculos doridos.
Aconselho vivamente aos que se queiram libertar da monotonia do dia a dia. 
Desta vez, Odivelas. Mas o Jamor está já está na calha. :)

25 agosto, 2012

Como vou eu esquecer-te...

Como uma ilha... sozinha.
É assim que me sinto sem ti... neste dia em que faz 34 anos desde que me puseste no mundo. Sinto a tua falta como nunca. Um beijinho onde quer que estejas... e que hoje seja perto de mim.


Se houver tempo para tudo, ainda ouvirei esta música ao vivo, hoje na baía de Cascais. Vila onde vivi.

22 agosto, 2012

The fog & the lies


... abro os olhos e não consigo ver nada. Está demasiado nevoeiro para que consiga vislumbrar o que quer que seja. Ouço vozes imperceptíveis que se repetem e sobrepõem sem qualquer sentido lógico. Não as consigo descodificar. Não sei se chegam até mim através de uma parede, se estão apenas longe, ou se os meus sentidos não estão aptos ao que me parecem ser idiomas disconexos.
Franzo a testa e tento olhar por entre este nevoeiro cerrado. Vejo algumas sombras disformes. Tudo me parece confuso e difuso. Parece um sonho, mas não é. Tenho a certeza. É a realidade.
Consigo olhar para as minhas mãos. Consigo perceber que estou ali fisicamente, mas não consigo ver mais nada para além disso. Não caminho. Permaneço imóvel no mesmo sítio, como que a tentar perceber o ambiente que me rodeia, os contornos do espaço e das coisas que nele se encontram. O ar é demasiado denso. Nem uma brisa corre, nada que faça dissipar este ar pesado e viciado. E os meus olhos não têm aptidão suficiente para me fazer mover confiantemente num lugar assim. Fico condicionada.
Decido avançar aos poucos, pé ante pé, e começo lentamente a vislumbrar pequenas coisas, pequenos indícios. Peças de um puzzle que ainda não montei. Mas nenhuma das partes parece encaixar na outra. Parece algo mal construído, cheio de pontas soltas.
Continuo a caminhar calmamente e vou guardando nas mãos partes do que vou encontrando, daquilo que vai chegando até mim. Coisas que não procuro, mas que vêm ao meu encontro. Até que, por fim, algumas dessas coisas me começam a parecer familiares. Começo a reconhecer certas palavras, expressões, momentos, imagens. Percebo então que este nevoeiro cerrado é composto de partículas minúsculas desses pedaços de coisas. Que se foram desfazendo ao longo do tempo e que agora tornam a minha visão turva.
Até que percebo que são tudo pedaços de mentiras. Difundem-se no ar. Toldam o pensamento dos demais. Não são as minhas mentiras. São as tuas. E as tuas. E as tuas.
Seu eu minto? Claro que sim. Todos mentimos. É inerente ao ser humano. Mas eu magoo com verdades, não com mentiras. E as mentiras têm diferentes pesos. As minhas esfumam-se no ar no momento imediato em que saem da minha boca. São irrelevantes. Estas, de que falo aqui, são tão pesadas que adensam o ar, tornando-o irrespirável.
Sei que a vida não é só feita de mentiras, mas este ambiente está tão cheio delas que se torna impossível ver mais além. Por melhor que seja uma pessoa, às vezes basta uma atitude má, para que tudo se transforme. Pior é quando essas atitudes se repetem infindavelmente. E assim se seguem os incontornáveis pedidos de desculpas. Como borrachas gigantes que já não sabem apagar o que ficou para trás, porque as desculpas não anulam o passado.
Faço mais um esforço. Ponho uns óculos especiais, uma espécie de visão nocturna. Assim, já consigo ter alguma noção de formas e cores. Consigo ver alguns sorrisos e deixo-me deslumbrar por isso. Até parece que está tudo bem, que tudo se dissipou e a minha visão volta a ser clara e distinta. Volto a sorrir também, volto a aproximar-me e volto esquecer-me desse passado que não é assim tão distante. Volto a acreditar que tudo é possível. Volto a confiar.  E, de repente, levo uma paulada na cabeça que nem sei de onde vem. E então...
... abro os olhos e não consigo ver nada. Está demasiado nevoeiro para que consiga vislumbrar o que quer que seja...


21 agosto, 2012

Isolamento


Vou ter que me isolar. Não é tanto uma obrigação, mas antes uma vontade. Quero afastar-me de toda a gente. Quero ficar sozinha. Não quero ter de continuar a participar em coisas e estar constantemente a fingir que está tudo bem. Não quero estar constantemente a sorrir só para não causar desconforto no outro, porque as pessoas sabem lidar com risos e sorrisos, mas não sabem lidar com angústias e lágrimas. (Porque os outros são sempre importantes, só os outros importam. Não percebo porque é que também eu não posso ser importante de vez em quando).
Preciso de me retirar de cena. Ficar só assim comigo própria. Não sei sequer se vou deixar de escrever aqui. Ainda nem sequer considerei essa hipótese. Pois gosto muito deste cantinho, sabem? E não é minha intenção desfazer-me das coisas. Apenas quero estar sossegada. Quero ficar longe da confusão e da falsa calma que só traz mais confusão. Quero ficar longe das intrigas e dos falsos julgamentos. Tento participar e continuar socialmente activa, mas isso só me tem trazido mais dissabores. Testemunhar umas graçolas e beber uns copos, não me compensa, não me conforta, nem me tem feito assim tão bem. Só me faz duvidar mais do mundo e da genuinidade das coisas.
Preciso de me ausentar do mundo e de tudo o que lhe é inerente. Talvez o período de férias que se avizinha vá servir precisamente para isso. Preciso de descansar, de me proteger, de me fortalecer. Preciso de olhar mais para mim e menos para os outros. Deixar de me preocupar com quem e com o que não interessa. Peneirar a vida... Talvez trazer algumas pessoas daí. Ou talvez não. Está na altura de parar de me esforçar pelos outros. Disseram-me que me esforço demais. Pois chegou o momento de sentir que esse esforço também é feito por mim e para mim.
Não quero pensar no que está para vir. Quero suspender pensamentos e sentimentos. Quero não sentir.
Ainda esta noite, ajoelhada aos teus pés, te disse que tinha saudades tuas. Tenho tantas saudades tuas. E tu apenas disseste que daqui para a frente será pior. Que teria que me preparar. Não sei ao certo o que isso quer dizer, mas já que tenho que cá estar, é melhor que me reerga em força para aguentar todas as tempestades, todos os furacões. Talvez consiga fazê-lo. Talvez consiga resistir o tempo suficiente para sobreviver a este pior que aí vem. Talvez consiga até subsistir para ver o que vem depois disso, para ver se ainda surgirão raios de sol depois da chuva imensa. Porque só aí vou saber se vale a pena voltar a sorrir ou se mais vale parar de lutar e deixar-me levar para outro lado qualquer. 

19 agosto, 2012

O outro lado da minha cama #2


Se eu pudesse suspendia o mundo durante cinco minutos. Precisamente... agora. Neste agora em que eu ainda estou deitada na minha cama, a lutar contra o dia que se adivinha igual a todos os outros.
Suspendia eu o tempo e voltava-me para o outro lado da cama, que agora se encontra vazio, e encontrar-te-ia ainda entregue ao mundo do sonhos. Sentiria o meu corpo morno contra o teu. Dar-te-ia um beijo na nuca e respirar-te-ia devagar. Até acordares docemente com um sorriso e me tomares nos teus braços. Assim, daquela forma sôfrega que só tu sabes fazer, como se fosse a última vez. Como se fosse sempre a última vez. Ficaríamos só assim, os dois, à parte do resto do mundo.
Cinco minutos de ilusão bastariam. Cinco minutos em que me sentiria novamente feliz e desejada. Cinco minutos que outrora tive tantas vezes
E agora, passados cinco minutos de pura ilusão, está na hora de me levantar e de enfrentar a crua realidade dos dias. Assim, abandonando o meu lado da cama que ficará como o teu, vazio como um amor esquecido no tempo.

(Não se trata de ninguém em particular. É este que referi aqui, pois em boa verdade não é esta ou aquela pessoa que interessa, mas sim o sentimento que está aqui descrito. Não é minha intenção reaver ninguém, mas sim sensações e sentimentos que já fizeram parte de mim e que julgo irrecuperáveis. Não sei se sou capaz de voltar a sentir, não assim, não desta forma.)

14 agosto, 2012

Beautiful Rain #2






Sabe-me tão bem voltar a ouvir a chuva a cair...
Espelha o meu estado de espírito.
Na calma do meu refúgio, vejo a leve agitação das folhas verdes como quem quer beber as gotas de água tépida. As demais descolam-se e vão humedecendo a sede das coisas. 
Que paz de espírito... quase surreal.

13 agosto, 2012

Unknown Thought


Olho para as minhas mãos. Tenho os dedos todos riscados, qual criança que faz os seus primeiros desenhos.
Riscos pretos. Restos de palavras. Coisas que ficam por escrever. Laivos de tinta negra que marca a ponta dos meus dedos, sem sentido como os pensamentos que surgem devagar.
Sentimentos que fogem por não quererem ficar registados no papel, por não quererem surgir de forma precisa, palpável para não serem relembrados. Ficam apenas disformes cobrindo as impressões digitais. Sem identidade definida. Riscos pretos para me lembrar que, não querendo existir de uma forma real, nunca foram mera ilusão.


09 agosto, 2012

Escrever... à mão


Para quem gosta de escrever, a mais alta forma de o fazer é à mão. Para mim, escrever é um acto tão natural que, quando o faço no computador ou no telemóvel, não tem o mesmo sabor.
Já lá vão vinte anos desde que o comecei a fazer. Mesmo antes da primeira desilusão de amor, que acontece na adolescência. Faz parte de mim e sinto a sua falta quando, por um motivo ou por outro, fico privada de o fazer. É um acto nobre que me liberta e me conforta.
É uma espécie de magia ver os pensamentos a serem  desenhados numa folha de papel em branco. Pena que a velocidade com que a nossa mão os desenha não acompanhe a rapidez com que vão surgindo na nossa cabeça. Por vezes, os raciocínios são tão rápidos que se atropelam. Tenho que parar um momento, respirar fundo, organizar as ideias e recomeçar. Tudo isto para que nada se perca.
Prefiro escrever com caneta preta, em pequenos papéis ou pequenos cadernos que vão sendo preenchidos com pedaços de mim. Escrevo essencialmente para mim. Aliás, faço-o apenas e só para mim, mas gosto de o partilhar. É bom sentir o feedback que alguns textos trazem. É gratificante receber alguns elogios. Não apenas por gostarem do que escrevo, mas por conseguir transmitir por palavras o que muitos se acham incapazes de fazer. É interessante perceber o quão algumas pessoas se sentem identificadas, como se fosse um discurso seu.
Por vezes, canso-me um pouco de mim. Acho que me torno repetitiva ou que a minha escrita reflecte demasiados momentos depressivos. Decido parar um pouco. Mas depois começo a ouvir ou a ler que algumas pessoas sentem falta daquilo que escrevo. Então, eu explico o porquê de ter parado um pouco. E é aí que surge uma voz que me diz que é precisamente por isso que gosta da minha forma de escrever. Por ser uma escrita muito mais negra que se afasta do romantismo comum. Que me destaco precisamente por esse lado negro e cru e pela forma habilidosa como uso as palavras.
Realmente, confesso que é quando estou mais deprimida ou revoltada que me saem os melhores textos. Enfim, continuarei a escrever, de preferência à mão. Essencialmente, para mim, mas continuarei a partilhar o que me vai na alma. Faça sol ou faça chuva, haja escuridão profunda ou um luar imenso.  

08 agosto, 2012

Dos que saem sem bater a porta


Não entendo as pessoas que surgem, que mostram o seu melhor lado, que dizem que estarão lá para mim, que o fazem genuinamente (quero acreditar) e que depois saem sem bater a porta.
Vão-se embora assim, sem palavras, sem razões, sem desculpas. Deixando a porta aberta atrás de si. Vão de mãos vazias sem qualquer recordação. Sem uma explicação, um motivo, uma queixa que me faça entender o sentido da sua ausência.
Indiferentes, seguem o seu caminho como se eu nunca tivesse existido. Completamente invisível, inexistente, quase surreal. Não tenho importância, nunca a ganhei, nem nunca foi esse o meu interesse. Pois a amizade não é feita de interesses.
Abdicam livre e despreocupadamente, de uma forma tão desapegada que nem uma palavra surge. Nenhum som fica sequer no esquecimento.
Vão, sem nunca dizer adeus, sem nunca bater a porta...

07 agosto, 2012

Lei da Compensação


Se para cada coisa boa que acontece, surge sempre outra má para nos lembrar que não podemos estar felizes durante muito tempo, porque é que o seu inverso não acontece? Porque é que o estado normal das coisas é sempre mau? Porque é que não pode ser o contrário?
Calculo que a minha felicidade e o bem estar que atingi nos últimos dias tenha irritado os deuses, que prontamente trataram de engendrar algo que me deitasse abaixo. Pois conseguiram. Uma série de maus sentimentos surgiram no meu peito. Outros tantos pensamentos negativos atravessaram a minha mente. Fiquei fisicamente indisposta. Mas não quero estar assim. Fico triste por estar triste. Decido que é preferível voltar aos sorrisos e à leveza de espírito.
Pois é, deuses maléficos. Empurraram-me, mas não me derrubaram. E se tentarem de novo, até posso cair, mas tornarei a levantar-me.
Por mais escassos e curtos que sejam os momentos bons, eu dou-lhes o devido valor e agarro-me a isso com unhas e dentes. São eles que me injectam a energia necessária, que me fortalecem. São eles que ocupam aquilo que me compõe e que não deixam espaço para o que não quero para mim.
Hoje, venceu o bem! J

Valtor


Ontem encurtou-se a lista das coisas que nunca tinha feito e ainda quero fazer. O convite surgiu inesperado e, após um dia de trabalho em que o descanso e o bem estar do fim de semana ainda se faziam sentir, lá fui eu ao encontro de uma experiência que queria, mas temia.
Atravessámos a ponte e percorremos a estrada até Alcochete. Confesso que estava um bocadinho ansiosa e disse logo que ia apenas ver e tirar algumas fotografias.
Era um animal enorme e não fui sequer capaz de lhe dar uma festa. Fiquei assim a uma distância confortável enquanto o cavalo era preparado para ser montado.
À medida que o tempo ia passando e eu ia observando os seus movimentos, ia-me parecendo menor, apesar dos seus mais de seiscentos quilos. De pêlo castanho, brilhante e lustroso, com uma estrela branca na testa, patas traseiras brancas junto aos cascos e crina e rabo pretos, era de grande porte e impunha o devido respeito. Uma massa magnífica de músculos e força, tão dócil quão grande.
Lá  cedi e decidi ir montar. Apesar de ser muito alto, não tive medo. Não me assustei sequer. Desde logo senti uma ligação enorme com o Valtor. Parecia que nos fundíamos num só e sentia todos os seus movimentos. A sua passada pesada transmitiu-me a confiança necessária. Conseguia apreender a sua temperatura. É um animal de sangue quente. O seu corpo parecia uma continuação do meu. Ou o meu do dele. Os dois numa perfeita harmonia.
Andei a passo e a trote. Fui corrigindo a postura.  Primeiro, agarrada com ambas as mãos, depois só com uma e depois sem nenhuma. Virei-me no seu dorso e andei de costas. Voltei-me novamente para a frente e levantei os braços. Qual calavo alado...
A melhor sensação foi quando me deitei sobre as suas costas. Senti as suas patas da frente a caminhar lentamente e o seu quadril sob a minha cabeça. Todo o meu peso deitado sobre o seu corpo imenso. E eu, de barriga para cima, sem o ver, colava as mãos aos seus músculos, de dedos bem abertos para sentir cada movimento. E só pude sorrir... limitei-me a isso. Pois não há nada a dizer quando contemplamos o sublime.
Preferi montar sem sela do que com. É melhor para sentir. É uma sensação de comunhão incrível.
No fim, já me abraçava ao Valtor, em jeito de agradecimento, sem qualquer medo ou receio.
Uma experiência demasiado marcante que ontem me deixou extasiada e com poucas palavras. Aposto que os meus olhos brilharam o tempo todo.
Hoje, continuo a sorrir, embora com os pés assentes na terra. Já não estou deitada sobre o seu pescoço com os braços esticados a dar festas entre as suas orelhas. As lágrimas surgem docemente ao relembrar tamanha emoção.
Resta-me agradecer por esta experiência (a repetir). 
Há muito tempo que não me sentia feliz, assim. Obrigada, Velasco!



02 agosto, 2012

01 agosto, 2012

...


Acho que a silly season está dentro da minha cabeça. Não tenho conseguido escrever muito. E o que escrevo é demasiado específico para querer partilhar aqui. Sobre pessoas e coisas específicas. Não é assim que o costumo fazer. Não é assim que o quero fazer.
Não escrevo com nomes, por isso as histórias podiam ser de qualquer pessoa. No entanto, quem me conhece facilmente enquadrava a coisa. E para histórias corriqueiras, já basta o facebook e as suas cusquices. Por isso, tenho-me mantido um pouco quieta no meu cantinho.
Os dias são iguais a si próprios, sem grandes surpresas. Pode parecer monótono, mas é mesmo disso que preciso. Trabalho, casa. Casa, trabalho. A única coisa que agora ilustra os meus serões de maneira diferente são os jogos olímpicos. Gosto especialmente das provas de natação. E aguardo expectante pelo atletismo.
Também tenho estado emocionalmente mais tranquila. O que me permite perceber que talvez com o tempo as coisas se componham.
A minha casa está arrumada e limpa. Eventualmente, a minha mente seguirá o mesmo caminho. Gosto de olhar à volta e ver as coisas nos seus lugares. É gratificante e transmite-me calma.
Amanhã, sigo novamente rumo a sul. Está aí o festival de verão com o melhor cartaz de sempre. Pelo menos para mim. Vão ser quatro dias de praia, boa comida, descanso e muita música. Que mais se pode querer? Talvez a surpresa de estar com algumas pessoas de quem gosto. Quem sabe...

26 julho, 2012

Força de Vontade


Pediste-me para escrever. Querias ler algo novo quando chegasses a casa. Pedi-te um tema. Disseste que ias pensar. Mais tarde chegou a mensagem que dizia “força de vontade”.
Sei que falavas da força de vontade para deixar certos vícios, porque ainda há pouco deixaste de fumar. Para mim, deixar vícios é uma coisa relativamente simples. Acho que basta que a pessoa o decida. Para mim, quinze dias é quanto basta. Mas isso é algo de que talvez vos fale um dia.
Mas quando li a tua mensagem vi as coisas noutra perspectiva. A minha. Sobre a falta dessa força que em mim não tem habitado.
Disse-te que era um tema complicado, nos dias que correm. Não tenho tido nem força nem vontade. Ou melhor, faltam-me as forças para cumprir as vontades que vão surgindo. E quando arranjo força e vou lá, falta-me a vontade de lá estar. Parece que não estou bem em lugar nenhum.
Quero fugir da monotonia e procurar outros lugares, com outras gentes e com outros cheiros. Mas falta-me a energia. Falta algo que me instigue. Parece que perdi o prazer nas coisas. Perdi o sabor da vida. Depois, quando consigo recuperar um pouco, pego em mim e vou lá, aos sítios, com pessoas e cores. E não sabe a nada. Perco a vontade numa espécie de desilusão. E volto para casa. Para o meu cantinho onde me sinto realmente confortável. Aqui, consigo sorrir algumas vezes. Aos poucos vou reconstruindo o meu ninho. Até a disposição do quarto mudei. Pode ser que esteja aqui o recomeçar de algo, o reconstruir das bases que preciso para me poder reerguer.
Que a vontade possa surgir em força e que me consiga abstrair e escrever sobre o que realmente me pediste. Em breve...




Dia dos Avós


25 julho, 2012

Xavier Rudd


@ Hipódromo de Cascais



Do resto dos dias


Não voltei a escrever. Fiquei sem paciência para o que quer que seja. Tive muitos momentos maus e poucos bons. Enfim...
Ficam na memória os bocadinhos de Alentejo que ainda consegui apreender. A boa comida. A música e o ambiente incomparável do FMM. A boa companhia que foi surgindo aqui e ali. O mar. A liberdade que impera nas praias escondidas. As noites estreladas e a única estrela cadente que vi, à porta de casa. E o Mil, claro. Um gato preto que nos adoptou. Mas essencialmente ficam na memória as poucas vezes em que sorri. 

Do dia 4

17 de Julho

Acordei bem disposta, tomei um banho e coloquei um vestido. Depois tudo começou a correr mal. Já passa das três da tarde e ainda não consegui sair de casa. Às vezes parece que basta que uma coisa sem importância corra mal para que o meu humor mude de tal maneira que parece quase impossível que volte a reaver a boa disposição. Ainda não vi por nenhum momento que a minha saída de Lisboa valesse a pena. Não me consigo desligar do que me deixa triste, não me consigo divertir. Perdi a vontade de fazer coisas sozinha. Não consigo ler. Fecho-me a ver séries sem ter a mínima disposição para o que quer que seja. Estou-me a perder no lugar onde geralmente me costumo encontrar. Se não consigo sentir-me revitalizada aqui, não sei onde irei buscar forças.
Hoje soube o resultado das minhas análises. Colesterol, triglicéridos e ácido úrico. E há um indicador que revela indícios de uma infecção.  Tudo a passar a escala do que seria normal. Não entendo. Logo eu que tomo cuidado com a alimentação. Não como fritos e doces são controlados. Até o chá que bebo de manhã é sempre sem açúcar. A única coisa de que não abdico, ainda, é do açúcar no café. Mas sinceramente, não me parece que seja isso que faça com que estes valores se apresentem tão elevados. Como pouco e várias vezes ao dia. Como fruta e sopas e no verão as saladas constituem sempre o acompanhamento. Alguma coisa no meu organismo está a processar os alimentos de maneira anómala. Já para não falar noutros sinais que o meu corpo tem dado. Ou, neste caso, a falta deles. O medicamento homeopático que a médica me receitou está longe de fazer efeito. Diz que não preciso de psicoterapia, pois até nisso falei com ela. Não acredito particularmente nesse tipo de ajuda, mas até isso considerei.
Não me sinto bem com ninguém nem em lado nenhum. Sinto que estou a chegar ao meu limite. Tento falar com alguns amigos, mas a resposta é invariavelmente a mesma. Dizem-me para ter calma que com o tempo as coisas vão passar. Para procurar a garra que há em mim. Qual garra?... Não percebo.
Passam-me a mão pelo pêlo e debitam duas ou três frases, mas não sinto nenhuma atitude real. Não sinto que agarrem em mim e levem para algum lado. Para eu me distrair. Nem sequer tenho conversas reais com princípio, meio e fim. Porra, para onde é que me vou virar? Já estou tão cansada...
...
Acho que vou à praia ao fim da tarde. É a melhor parte. As pessoas já estão a sair e já não está tanto calor. Pode ser que ver o mar me traga alguma paz de volta.

Do dia 3

16 de Julho

Acordei e tentei voltar a dormir, mas não consegui. Fiquei às voltas na cama e acabei por desistir. Tomei um banho e tomei o pequeno almoço e fiz-me à estrada.
Das coisas que mais gosto a caminho destas praias é precisamente o percurso. As curvas e contracurvas que conheço tão bem, os recantos, as casinhas por que vou passando, os cafés à beira da estrada, o nome das terrinhas, a passagem por dentro de Porto Covo, as dunas e as praias mesmo ali à beira da falésia. Um caminho algo longo de 27 quilómetros, mas que valem a pena, mesmo ao preço que a gasolina está. Chamem-me o que quiserem, mas em tempo de férias não se contam tostões. Lamento, mas passo o ano todo a fazê-lo. E, com o que trabalho, acho que mereço não ter que me preocupar com isso uma ou duas vezes por ano. A sério, acho mesmo que mereço.
Estive apenas uma hora na praia, apesar do tempo agradável que se fazia sentir, porque não estava demasiado calor e havia vento em quantidade suficiente para que a temperatura elevada não chegasse a incomodar. Depois chegou a hora do almoço e decidimos ir a um restaurante mesmo ali perto. Finalmente, as tão desejadas sardinhas, com uma caminha de pão (alentejano, claro) e um vinho (alentejano, claro) branco e fresco, com uma salada bem temperada de alface, tomate, pepino, pimento, cebola e cenoura. As batatas ficam na travessa à espera de quem as quiser comer.
Depois do almoço, decido ir fazer o euromilhões e dar uma volta. Aposta feita, mas o passeio ficou adiado devido ao excessivo calor que se fazia sentir. Estava demasiado mole para conseguir caminhar e os copos de vinho que bebi também não ajudaram. Decidi ir para casa para dormir uma sesta. Mas dormir é coisa que não tenho conseguido fazer. Falta-me o silêncio necessário. Estou habituada a ter o meu espaço e construo os meus silêncios quando assim o desejo.
Estas férias, ao dividir a casa com a família, ao invés do habitual campismo, e com os putos sempre a correr de um lado para o outro, a agitação está sempre presente a um ritmo demasiado acelerado. Não estou habituada a tanto movimento e não me consigo concentrar em tarefas tão banais como dormir, ler, escrever ou apenas pensar. Acabei por desistir, enfiei-me na banheira e tomei um duche com água a tépida, pois não há água fria que corra nos canos nestes dias tão quentes.
Sinto que me parou a digestão. Bebo apenas água em golos pequenos para que não piore. Mesmo assim, a má disposição tende a não abrandar. Abro todas as janelas e portas de casa. Finalmente, corre uma brisa. Estava a ficar demasiado insuportável. Estranho é que só eu pareço estar incomodada. Enfim...
São quase oito da noite e vamos jantar fora. Contentar-me ia com qualquer coisa leve lá mais para o avançar da noite, mas a família insiste em sair e lá vou eu com o rebalho. Talvez encontre uma saladinha no restaurante. Até já.

Do dia 2

15 de Julho 

Acordei cheia de frio. Enregelada. Mais uma vez, comprovei que as noites no Alentejo arrefecem demasiado. Levantei-me com a energia necessária. Pequeno almoço tomado no sítio do costume, com aqueles croissants que já não são a mesma coisa nem com o mesmo tamanho de outros tempos. Apesar disso, continuo a lá ir. Gosto de manter os meus hábitos.
Decidi não ir logo para a praia, porque estava demasiado calor e seria este o meu primeiro dia em que me espunha ao sol. Comprámos carne para grelhar e alface para a salada. Vinho branco muito fresco para acompanhar, como se quer. Eles cozinham e eu ponho a mesa e lavo a loiça. Parece-me justo.
À tarde o descanso merecido. E mais um episódio do Casas para entreter.
Cinco da tarde. Hora mais que boa para ir à praia. Como é o primeiro dia, decidi não perder muito tempo e ir a uma das praias aqui da vila. A maior parte das pessoas já estavam a regressar a casa quando lá cheguei. Mesmo como eu gosto. Pouco calor e óptimo para apreender os últimos raios de sol. O suficiente para relaxar um pouco até se começar a levantar o vento próprio do ocaso e me dar o sinal que era altura de voltar.
Neste momento, encontro-me a aguardar que o jantar fique pronto. Um dia tranquilo. Vamos ver se amanhã a boa disposição cresce e reencontre o estado de espírito que necessito.

(...) Às cinco da manhã, dou por mim com uma insónia. Algo que não me acontecia há já algum tempo. Decido levantar-me e fazer outra coisa qualquer para ver se o sono vem.
Estendo-me no sofá da sala com apenas a luz de um candeeiro acesa e tento fazer o mínimo de barulho possível para não acordar os demais.
Há dois ou três dias que não actualizo a minha leitura virtual. Visito alguns blogues, mas depressa perco a paciência de ler as letras pequeninas que se vão mostrando no pequeno ecrã do telemóvel. Não tenho net no portátil. Também não me faz grande diferença. Vou escrevendo e mais tarde publico, se for caso disso.
O sono tarda em aparecer e já são quase seis da manhã. Lá fora, ouço os galos que anunciam o nascer do dias e uma matilha de cães insiste em marcar a sua presença em latidos constantes. Provavelmente, foi isso que me acordou.
Acho que amanhã, depois do belo pequeno almoço com pão alentejano, vou até uma das minhas praias. Estou a precisar de ver o mar e de ganhar alguma cor. 31 graus é a máxima prevista para amanhã (esse amanhã que já é hoje, mas que não assumo porque ainda não dormi tudo). É demasiado calor para mim, mas suficientemente suportável com a ajuda de um chapéu de sol, água e evitando as horas de maior calor. Ouvi dizer que na capital está insuportável. Ainda bem que fugi de lá.
Tenho fome. Uma bolachas são o ideal para entreter o estômago. Agora lembrei-me daquela história do Murakami em que eles não têm comida em casa e às tantas da manhã decidem ir assaltar um McDonalds. Mas não tenho assim tanta fome e nesta terra, felizmente, ainda não há disso.
Corintia são a minha companhia. Mais que suficiente.
O dia começa a surgir lá fora, tímido. Já vai iluminando as casinhas alentejanas com janelas enquadradas em tons de azul. Os galos vão soando cada vez mais longe e os latidos caninos deram lugar ao piar das andorinhas.
O portátil dá agora sinais de pouca bateria. Faz o primeiro aviso em que apenas restam dez por cento. Deve ser esta a minha deixa para regressar à cama e tentar passar novamente para o outro lado dos sonhos. Até já...

Do dia 1

14 de Julho


Passei os útimos dias de trabalho em contagem decrescente, ansiosa pelas merecidas férias. Apenas uma semana estarei ausente. No entanto, é sempre bom poder sair para arejar as ideias.
Decidi só abalar no domingo para ter tempo suficiente para fazer as coisas com calma. Estar com as pessoas de quem gosto, organizar tudo, deixar a casa limpa. Gosto quando volto de férias e está tudo limpo e arrumado.
Chegado o dia da partida, a vontade em me ausentar desapareceu. Só me apetecia abortar todos os planos e ficar uma semana em casa. Sozinha, com as minhas coisas e as minhas causas. Sem sair da minha zona de conforto. Mas apesar disso, fiz um esforço em cumprir o que havia combinado. Tudo a muito custo, é certo. Mas aos poucos, e como não tinha prazos a cumprir, lá fui conseguido fazer tudo a que me tinha proposto.
Saí de casa e entrei no carro. Triste como nunca ninguém se sente quando vai de férias. Um  sentimento que não sei explicar. Uma apatia que me ocupava e que tantas vezes me faz recusar convites em ir aqui e ali.
A viagem até ao litoral alentejano fez-se com traquilidade. A primeira parte, a ouvir o M. Uma homenagem à Erikah Badu. Concerto que vou perder, por ter rumado a sul... Aquela placa que anuncia a chegada ao Alentejo e que invariavelmente me faz soltar um sorriso. A segunda parte, ao telefone. Bem acompanhada até chegar ao meu destino. Passei por Porto Côvo no lusco fusco, naquela altura do dia que eu, como miope que sou, não vejo nada. Abri a janela para inspirar o cheiro da maresia, mas nada aconteceu. Aquele ar fresco que me revitaliza e que logo à chegada me costuma dar uma injecção de energia, não estava lá para me receber. Foi estranho...
Uma cor vermelha e quente ilustrava a linha do horizonte e revelava que o sol tinha acabado de se pôr.
Jantei e fui me deitar com uma sensação de vazio. Foi assim o meu primeiro dia de férias.

11 julho, 2012

It Ain't You - The Black Mamba


Dark skies & shining stars


Naquela noite, decidimos ir ver as estrelas. Disseste que havia um sítio especial onde as costumavas ir ver sozinho quando eras mais novo. Querias partilhá-lo comigo.
Descemos a ladeira quase às escuras, levando nos braços uma manta, porque os dias no Alentejo são quentes, mas as noites são frias e com uma cacimba que se entranha na pele.
Sentámo-nos no banco de cimento, muito juntinhos um ao outro e com a manta à volta de ambos os corpos. À nossa frente, um céu imenso, muito negro com um manto monumental de estrelas de diferentes brilhos e tamanhos. O mar revoltava-se, estendendo-se sobre as rochas fazendo um som inconfundível. A luz que se esfumava já muito para lá da linha do horizonte, aquecia todo aquele cenário onde apenas se viam alguns barquinhos ao longe. A falésia à nossa frente guardava agora os nossos segredos, enquanto contemplávamos as estrelas cadentes que rasgavam o céu...
Agora e há distância de alguns anos, volto ali para ver as estrelas sozinha e relembrar a perfeição daquele momento. Sei que também o fazes quando ali voltas nos teus verões e nos teus invernos. Imagino-te, com o olhar pensativo, a puxar de um cigarro e a contemplar tudo aquilo sozinho. Naquela paisagem que é tão grandiosa e o quão pequeno te sentes ao olhar para o banco e ao ver que o lugar vazio ao teu lado permanece frio, ausente de mim. Pensas apenas: “... será que algum dia voltaremos a ver as estrelas juntos?”


É nas noites em que o céu está mais negro, que verás as estrelas mais brilhantes.


07 julho, 2012

Acordar assim...


... e comprar rosas frescas para alegrar a casa. :)

05 julho, 2012

The Verve Pipe "The Freshmen"


... para quem se lembra :)

North Atlantic


i will not be broken


I will not be broken
I won't be turned away
When it's too cold to breathe
and too dark to pray
I will not be broken

I've come too far to give up
or to be turned around
I will not be broken
I will not go down

5 meses depois...








... o meu mundo vai-se tornando cada vez mais escuro.
Será que algum dia vou ser capaz de sair daqui?

04 julho, 2012

As tuas duas mãos na minha cintura


Acordei com uma sensação docemente estranha. Acho que sonhei contigo novamente. Desta vez, nem sequer te vi, mas tenho a certeza que eras tu. Eu estava encostada ao balcão da cozinha a cortar uns vegetais para o jantar. Tu vieste por trás de mim, colocaste as tuas duas mãos na minha cintura, uma de cada lado junto ao atilho do avental, e falaste-me perto do ouvido, como que a espreitar por cima do meu ombro direito a tentar ver o que eu estaria a fazer. Lembro-me de perguntares se eu precisava de ajuda enquanto roubavas uma rodela de pepino. Talvez para ir entretendo o estômago enquanto bebias a tua boémia.
Lembro-me ainda de sentir um breve beijo na linha invisível que separa o pescoço do ombro antes das tuas duas mãos abandonarem a minha cintura.
Nunca me virei. Continuei calmamente a cortar os vegetais. Uma cena tão normal da vida real.
Achei estranho pela intimidade que partilhávamos. Não era algo físico, embora obviamente houvesse essa proximidade, mas não tinha qualquer maldade ou intenção. Nem minha, nem tua. Era uma confiança que só algumas pessoas têm. Uma cumplicidade muito bonita pela sua natureza desinteressada.
Um sonho tão real que custa a acreditar, pois na minha realidade estes sonhos não existem.

02 julho, 2012

Just another night #2



Existem dois motivos para eu estar algum tempo sem escrever. Ou porque estou demasiado ocupada, mentalmente disposta a fazer coisas e emocionalmente estável para as cumprir sem dar lugar a tristezas. Ou porque estou demasiado triste e até tenho receio do que possa transpôr para o papel.
Ultimamente, tem sido um misto dos dois. Mas não por circunstâncias da vida ou por bons motivos. O que tem acontecido é que eu intencionalmente me ocupo para não ter tempo para pensar no que quer que seja. Pois sei que quando me permito parar por um pouco me vou abaixo com alguma facilidade.
Hoje, em particular, não está a ser um dia fácil. Sinto-me completamente sozinha. E isso não é bom. Garanto-vos. Durante o dia, estive ocupada no trabalho e as horas passaram a uma velocidade estonteante. Aguentaria outras oito sem sequer reclamar, se preciso fosse. Mas depois há o regresso a casa... Não é fácil regressar sem ter ninguém à espera nestes dias em que não nos somos suficientes. E hoje sinto que não me sou suficiente.
Têm acontecido demasiadas coisas que me deitam abaixo. Ou por um comentário infeliz, ou por uma conversa que me deixa triste, ou por sentir falta de coisas e de pessoas que não deviam estar ausentes. Talvez espere demais das pessoas. Sou demasiado exigente, talvez. 
Depois há outras que também contribuem para esta fase que teima em não passar, mas de que não vou falar aqui. Porque há muitas coisas que não partilho. Nem aqui, nem em lugar nenhum. Simplesmente, guardo-as para mim. Coisas demasiado minhas.
Tenho tantas coisas para fazer. Olho em volta e a minha casa está estagnada. Assim, como a minha alma. O pó vai-se acumulando na superfície dos móveis, a desarrumação vai-se fazendo notar. Não tenho disposição nenhuma para fazer o que quer que seja. Falta-me a coragem.
Precisava de dar uma volta a isto tudo. Deitar coisas fora, dar algumas de que não preciso, desanuviar o espaço. Alterar a disposição das coisas, renovar e pôr ideias em prática, livrar-me desta energia negativa. Queria  poder respirar fundo e sentir-me revitalizada no meu cantinho.
Estou cansada. Estou mesmo cansada. Alguma coisa precisa de mudar para melhor. Alguma coisa tem que surgir para que possa recuperar um pouco a energia que me falta.
Ontem pintei as unhas de uma cor garrida. Já não o fazia há bastante tempo. Ainda não me seintia bem para isso. Normalmente, o que vestimos ou o que usamos, é um reflexo do nosso estado de espírito. Mas desta vez, reverti o sentido. Esperei que o meu estado de espírito acompanhasse a cor do verniz que escolhi. Não resultou. 

Vertigo

(... a 27 de Junho, passada quarta-feira)
Um dia normal como tantos outros. Dez horas seguidas de trabalho, apenas com uma curta pausa de quinze minutos para almoçar. Final de tarde... tudo a postos para ver o jogo. Alguns acertos de última hora e saio do trabalho às seis em ponto.  Apanho o metro, troco de linha. Tudo tranquilo. Chego ao destino e, em vez de dar a volta ao quarteirão, decido cortar caminho e ir por uma ponte aérea que passa por cima de uma via rápida. Ando distraidamente agarrada ao telemóvel, como sempre. Última mensagem. Acto contínuo, guardo o telefone no bolso e levanto a cabeça...
De repente, dou por mim já em cima da ponte, talvez a mais de um terço do percurso, olho para o lado e vejo os carros a passarem por baixo de mim. O caminho estreita-se e o chão foge-me dos pés. As pernas tremem que nem varas verdes. Uma vertigem abismal... Sinto que se voltar para trás, vou cair. Caso me volte, caio redonda no chão e fico ali mesmo. O pânico instala-se. “Não olhes para baixo. Não olhes para baixo”. Começo a correr, mas rapidamente me apercebo que é pior. O pouco equilíbrio que ainda consigo manter, esvai-se. A ponte de ferro e betão armado balança sob os meus pés que nem uma folha ao vento.
“Calma. Respira fundo. Tu consegues!”. Não tinha força nas pernas. Nenhuma. Tive que a ir buscar um um lugar muito recôndito do meu ser. Fiz uma contagem decrescente e os metros entre mim e o fim da ponte iam encurtando.
Lá cheguei ao fim com a passada mais firme que me foi possível. Com a cabeça erguida e sem pinga de sangue a correr-me nas veias. “Consegui!”.
Que acelerado que batia o coração dentro do meu peito. A falta de ar que demorou a desaparecer. Dez minutos depois, sentia-me como se tivesse levado uma tareia. Tudo me doía e sentia uma imensa vontade de chorar, devido a tanta tensão acumulada em tão curto espaço de tempo. Logo eu que nunca tive vertigens na vida e pontes aéreas foi coisa que nunca me assutou. Que cena tão estranha esta...
Até me envergonho de dizer isto, mas por momentos, ali no cimo daquela ponte, julguei que ia morrer. Felizmente, tive presença de espírito suficiente para não me deixar levar por aquele turbilhão de sensações que não sei definir nem explicar. Será isto que sentem as pessoas que têm vertigens?...




Já passei novamente pela ponte. Duas vezes. Nada aconteceu. Alguém consegue explicar isto?...

29 junho, 2012

Feel Good


E mais outra confirmação...
Para mim, o melhor cartaz de sempre :)

Since you´ve been gone / A Memória


Mais uma confirmação para o Sudoeste TMN.

26 junho, 2012

Mundos Mudos


Paralelo #2 - daqui

Logo pela manhã, chego à entrada do teu quarto, aquele que um dia foi nosso. Entreabro a porta, que precisa de arranjo e, como já é habitual, range. Range o suficiente para te acordar. Tens o olhar meio perdido, talvez pelo sono, ou talvez não me consigas vislumbrar porque estou em contraluz. Ficas parado durante algum tempo, como que para ter a certeza da minha presença e eu permaneço imóvel para não te assustar. Disseram-me que é melhor assim. Olhas-me com uma incerteza estranha, como se a imagem que vês parecesse focar e desfocar alternadamente, sem te dar tempo para conseguires precisar o que vês, sem te dar tempo de me reconheceres. Foi assim nas primeiras vezes, nas primeiras manifestações, naquelas em que nem eu queria acreditar. Aproximava-me, sem te tocar, mas à distância suficiente para me reconheceres, à distância suficiente de tudo o que ainda não te foi permitido esquecer.
Os dias foram passando na ausência de ti. Apenas o teu corpo subsistia ali, mas não eras tu. Nunca saí do teu lado. Passavas a maior parte do tempo ausente, absorto nos teus pensamentos, num mundo distante. Distante de mim, distante de nós. Deste nós por que tanto lutaste, que tanto cuidaste e que agora nos era arrancado desta forma tão vil. 
Por vezes, olhavas-me. Ficavas assim a observar-me e a acompanhar um gesto meu. Talvez isso fosse algo que te pudesse trazer de volta, pensei eu tantas vezes na minha eterna esperança. Mas ficavas apenas assim. Num corpo que era o teu, mas que estava vazio de ti. Inanimado, desanimado.
E eu sentia-me tão triste, tão angustiada. A impotência de não poder fazer nada. Sentia um oco no lugar do coração. Mas nunca chorava. Nunca. Chegava-me a certeza de que ainda te restavam memórias de mim. Memórias de aquilo que um dia fomos. Na verdade, nunca me conformei e permaneci sempre ao teu lado.
Levava-te a passear nos dias de sol, naqueles em que parecias mais perdido.

Hoje foi o dia mais longo do ano. Uma sexta feira de um intenso azul. Um azul que fazia lembrar o mar quando ainda éramos nós e íamos passear juntos. Deitávamo-nos à sombra dos pinheiros mansos...
Mas hoje, ficámos apenas sentados, assim durante muito tempo, junto ao rio. Nem sei precisar quanto tempo passou. Eu e tu, uma aragem invisível e os raios de luz que rasgam a água fria. Não existem palavras. Apenas intenções. São gritos mudos daquilo que vai ficando por dizer, palavras outrora proferidas por uns lábios ainda falantes, agora apenas guardadas dentro de mim. E sei que também dentro de ti.
Viras a tua cabeça na minha direcção, a tua mão avança na procura da minha, entrelaças os teus dedos nos meus. E, pela primeira vez em muito tempo, uma lágrima surge no meu olhar. Torna o meu mundo desfocado e talvez um pouco mais parecido com o teu. Por breves milésimos de segundo, pareces reconhecer-me. Tenho quase a certeza. Mas não passa de uma ilusão. Volta aquele olhar confuso que devolve uma incerteza que não reconheço.

Talvez esta tenha sido a última vez, talvez nunca mais vejas o meu rosto, agora um pouco diferente daquilo que te lembras devido ao pesar dos anos. Tal como os meus dias, também os meus olhos escureceram e já não guardam o brilho que iluminava o nosso passado.
Amanhã, todas a memórias serão apagadas e não te lembrarás mais dos escassos momentos em que me voltaste a ver. 
No passado, dizias que eu era o teu anjo. Hoje sei que sou apenas o teu fantasma. Alguém que continua ali, pacientemente à tua espera para quando voltas a esta realidade. Quem me dera poder ir ter contigo, a esse teu mundo. Encontrar-te para voltarmos a ser nós. Quem me dera poder exorcizar os teus fantasmas...