17 maio, 2011

Meio-Dia

Disseste que vinhas amanhã ao meio-dia. Tão preciso. Doze horas. Em ponto. Não podes precisar isso. És falível, como os seres humanos. Não tens esse poder. Não tens esse direito. Não te podes sequer atrever.
Meio-dia. Precisamente o momento em que o dia se divide. Se vieres, também tu ficarás dividido. 
Eu acho que não vens. Inventarás uma desculpa qualquer, parecida com a da última vez. Aliás, nada dirás. Vais deixar simplesmente que a outra metade do dia percorra as horas, os minutos e os segundos em silêncio. Nem o compasso dos ponteiros do relógio se fará ouvir. Ficará tudo estanque, no vácuo.
Quem me dera também ficar assim, suspensa… sem nenhum pensamento a atravessar a minha mente. Sem nenhuma palavra a vaguear docemente pelas linhas do meu raciocínio. Sem nenhuma imagem a desertificar a minha visão. Nem tudo preto, nem tudo branco. Nada. Nenhum sentimento. Nada que me faça sentir que estou sequer a respirar. Nem luz nem sombras. Nenhum gosto na boca. Nenhuma imperfeição no tacto. Nenhum cheiro que me traga a realidade de volta. O Nada…
Não é sequer um vazio que me deixe angustiada e que me provoque um sentimento amargo. Não. É nada. Impossível de imaginar. Mais difícil que a ideia de Infinito.
Uma suspensão de memória. Acordaria no dia seguinte sem sequer me ter apercebido da passagem do tempo. Sentia apenas uma paz enorme. Como se tivesse descansado o que nunca descansei, por estes anos todos. Num meio dia, ao meio dia. Com essa precisão.
É isso. Se não vieres ao meio-dia, tomarei um ansiolítico, para me desligar. Para me ligar ao vazio, a esse nada que me descansa. Que me permite parar e afastar de mim todos os males do mundo.


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