30 março, 2011

pedaços de sonho

São quase oito da noite. Lá fora adivinha-se o lusco-fusco. Cá dentro a luz é diminuta. Quase não vejo as letras que se vão desenhando sobre o papel. Relutantemente, acendo a luz do candeeiro que invade todo o quarto e se estende sobre a cama onde me encontro. Esta cama que guarda em silêncio os pedaços de sonho da noite anterior. Pedaços que espero reconstruir quando fechar os olhos e me abandonar novamente para um sono profundo. Naqueles mundos irreais em que tudo é possível, não passando de um mero faz de conta. É como um simulador para onde entro e experiencio uma realidade paralela que não chega a acontecer. Uma realidade que se me apresenta quase perfeita e de onde sou arrancada todas as madrugadas através de um sinal sonoro a que nunca me habituo e que me parece sempre demasiado violento. Devolvo essa violência num gesto repentino, pensando na premissa “só mais cinco minutos”…
Espreguiço-me e sinto o cheiro da manhã. Penso devagar e metodicamente no que é que vou vestir, fazendo várias combinações mentais. Levanto-me num impulso para não perder a coragem e para afastar o calor reconfortante dos lençóis, como que expulsando um demónio bom. Dirijo-me num ápice para a casa de banho e enfio-me debaixo do chuveiro. Vão escorrendo pelo meu corpo alguns desses pedaços de sonho, que lentamente dão lugar a cruas realidades. Vou despertando, tentando sorrir apesar de tudo. E começa a rotina. Vestir, secar o cabelo, lavar os dentes – os mesmos gestos repetidos como um ser automatizado. Saio lá para fora. Parece que venho da lua e que aterro, sentido novamente a gravidade do planeta. Essa gravidade inevitável. Escondo-me ainda atrás de uns óculos escuros (qual avestruz), mantendo a minha invisibilidade ilusória. Phones nos ouvidos... Assim, consigo não apreender a luz tal como está, nem ouvir os barulhos da azáfama da cidade, mantendo o meu mundo intacto por mais alguns minutos. Cumpro o meu percurso estoicamente, mas disfarçando essa obrigação, ilustrando-a com outra cor, com outros sons. É como se adiasse por mais um pouco a monotonia do dia-a-dia, fazendo permanecer brevemente a minha fugidia zona de conforto.
É então que ao virar daquela esquina se apresentam mais uma vez os mesmos rostos, com as mesmas expressões, com os mesmos sorrisos enferrujados. Os olhos embaciados pelo hábito dos dias… Mas isso será somente amanhã de manhã, enquanto a cafeína não invadir o meu organismo e enquanto as vozes da telefonia não instigarem a uma doce gargalhada. E é só aí que abraçarei a minha cidade e direi bom dia ao resto do mundo.


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